A devoção mariana em tempos de pandemia

Certamente essa será uma das cenas mais vivas na memória de todos os católicos que estão vivendo estes dias de pandemia do novo coronavírus: um homem, sozinho, atravessa uma praça. Esse homem, o Papa Francisco, no dia 27 de março deste ano, atravessou sozinho a Praça de São Pedro, no Vaticano, para rezar diante do Crucificado e do ícone da Mãe de Deus.

Foto: Vatican News

Por Frei Jonas Nogueira da Costa, OFM

Talvez o que mais tenha nos tocado é o modo como nos identificamos com esse homem. Também nos sentimos sozinhos diante desta pandemia. Também nos sentimos atravessando um momento de nossa história em que olhamos para as pessoas que amamos, para a sociedade e para nós mesmos e percebemos um entardecer, um profundo entardecer em nossos corações. E esse homem, que sozinho atravessa a praça, traduz esse sentimento com as seguintes palavras:

“‘Ao entardecer…’ (Mc 4,35): assim começa o Evangelho, que ouvimos. Há semanas, parece que a tarde caiu. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo de um silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos. À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados: ‘vamos perecer’ (cf. 4,38), assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos.”

E, em sua prece, ele reúne todos os fiéis e os faz olhar a imagem de Jesus Crucificado, olhar para Aquele que “assumiu nossas fraquezas e as nossas dores”, que “por seus ferimentos fomos curados” (Is 53,4-5). Também conduz nosso olhar à Mãe de Deus, invocada como Salus Popoli Romani (Salvação do Povo Romano). As imagens de Jesus Crucificado e de Maria alcançam o mais profundo de nós mesmos e nos incutem coragem. Coragem de atravessar essa praça vazia de nossos dias.

Queremos, neste artigo, refletir sobre a forma como a devoção mariana nos ajuda a viver, rezar e meditar nestes dias em que somos ameaçados pelo novo coronavírus. A Igreja sempre considerou a intercessão de Maria como um importante elemento de sua fé. Por isso, vejamos como isso é expresso nas três orações marianas mais significativas de nossa devoção e a atualidade de suas expressões piedosas.

Sub tuum praesidium

A mais antiga oração mariana é denominada pelas suas primeiras palavras Sub tuum praesidium (À vossa proteção). Sua composição é, possivelmente, proveniente da região do Egito (Alexandria), datada por volta do século III.

Sua maior importância no campo do dogma cristão é a expressão Theotokos (Genitora de Deus), que nos revela o modo como a comunidade professa sua fé no mistério de Jesus Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, gerado no ventre de Maria. O título antecede ao Concílio de Éfeso (431) que, desde então, ratifica essa expressão mariana dentro de uma perspectiva cristológica mais ortodoxa.

Contudo, o que queremos ressaltar é o contexto dessa oração. Pesquisas nos indicam que ela foi composta em tempos em que a comunidade cristã estava ameaçada por um grave perigo e se refugiou sob a proteção da Mãe de Jesus. Desse modo, encontramos uma expressão de confiança dos fiéis que esperavam ser atendidos pela Virgem Maria (“não desprezeis as nossas súplicas”) em sua situação de profunda fragilidade (“livrai-nos sempre de todos os perigos”).

Encontramo-nos num contexto muito semelhante. Tanto no que concerne à contaminação do coronavírus, quanto em relação aos desafios que o distanciamento social provoca. Num país como o Brasil, em que a corrupção política empobrece todo um povo, um dos setores em que mais percebemos seus efeitos nefastos é na área da saúde pública. A limitação de leitos hospitalares disponíveis, escassez de respiradores artificiais e de profissionais da saúde levam esta situação a um patamar ainda mais preocupante. Sem contar que o distanciamento social, medida sanitária necessária para a não propagação do vírus, traz consigo desafios de ordem emocional, econômica e social. Contudo, talvez o maior perigo que se manifesta diante de nós, relacionado à pandemia, é a forma como algumas pessoas (políticos de um modo particular) e instituições priorizam a economia em detrimento de vidas. Gerar rendas é mais importante para uma elite que salvar vidas. Essa mentalidade e sua aplicação são muito mais nefastas que o próprio vírus, pois a pandemia vai passar, mas o efeito do pecado da ganância e do pecado da omissão, por parte de uma grande parcela da população, gera dor, sofrimento e morte. Como corrigir isso? Dizer que isso também vai passar? “Jogar para debaixo do tapete” esta parte da nossa inglória história? Sabemos que a questão é muito complexa e só o Espírito Santo, que gera vida e conversão, pode nos ajudar.

Foto: Vatican News

A Ave-Maria

Mesmo não sendo a mais antiga oração mariana, a Ave-Maria é a oração mais recitada no culto à Mãe de Deus. Suas origens remontam à liturgia oriental no fim do século IV, que uniu a saudação do anjo com as palavras de Isabel, formando uma breve antífona. No Ocidente, antes do ano 1000, encontramos essa oração como antífona do ofertório da missa do IV Domingo do Advento, da quarta-feira do Advento e da festa do dia 25 de março.

Fora do contexto litúrgico, essa versão primitiva da Ave-Maria, que contava apenas com o que conhecemos como sua primeira parte, teve como grande propagandista São Pedro Damião († 1072). Somente no século XII que o povo assimilou essa prece como algo de sua constante expressão de fé, atribuindo-se ao Papa Urbano IV (1261-1264) a conclusão com o nome de “Jesus”.

Encontramos os resquícios mais remotos da segunda parte da Ave-Maria em um breviário dos monges cartuxos dos séculos XIII e XIV. Num dos sermões de São Bernardino de Sena, proferido em 1427, lemos as palavras: Sancta Maria, Mater Dei ora pro nobis. Num breviário romano dos séculos XIV e XV, encontramos também o complemento com o acréscimo das últimas palavras: ora pro nobis nunc et in hora mortis nostrae. Amen.

Pedimos que Maria nos acompanhe com seu amor materno em cada instante de nossas vidas, mas sobretudo naquele que se coloca diante de nós como o mais incerto e frágil de todos, a hora de nossa morte. Mesmo sendo a morte uma realidade conatural à nossa humanidade, e que pela dimensão da fé não é o fim da vida, ela é a condensação de todos os nossos temores numa única situação. Nisso se encontra um dos motivos de muitas pessoas terem medo da morte. Logo, a invocação da figura protetora e amorosa da mãe, sobretudo a Mãe de Deus e nossa nessa hora, provoca uma onda de encorajamento, pois é um convite à entrega, ao absoluto amor misericordioso de Deus.

Nesse sentido, é muito interessante o que G. Roschini nos diz sobre a palavra “mãe”: “É a primeira que brota dos lábios e, geralmente, é também a última que aí se extingue, pois se observa frequentemente nos moribundos este fenômeno psicológico: a invocação de sua mãe”.

Quando um paciente está para morrer por covid-19, ele se encontra sozinho. Ao seu redor se encontram heroicas pessoas lutando por sua vida, mas encobertas por necessárias roupas e óculos protetores. Mas, quem lhe segurará a mão dando-lhe o último calor humano? A Mãe. Ela, “na hora da nossa morte”, está presente, como tanto pedimos em cada Ave-Maria. E dela temos o último calor humano que nos conduzirá à vida eterna.

Salve-Rainha

No contexto desta epidemia, essa oração mariana torna-se muito peculiar, o que justificamos a partir dos verbos “bradar”, “suspirar”, “gemer” e “chorar”, que denotam, poeticamente, a intensidade com que os fiéis rogam à Virgem Maria sua intercessão, o que lembra o sentimento de todos nós neste tempo de pandemia, que pode ser visto, também, como um “vale de lágrimas”.

A composição da oração “Salve Rainha” é atribuída a Hermano, o Contrato († 1054), mas há outros possíveis autores, como: Pedro de Mezonzo († 1000), bispo de Compostela; e Ademar de Monteil († 1098), bispo de Le Puy-en-Velay. A piedade medieval acrescentou o termo “Mater” no primeiro verso da oração bem como “Virgo” no último. Em 1135, já encontramos estabelecido o costume de se cantar a Salve-Regina como hino processional no Mosteiro de Cluny.

Podemos dizer que, depois da Ave-Maria, a Salve-Rainha é a oração mariana mais rezada e conhecida. Essa oração começa com uma saudação que nos ajuda a compreender como se via Maria no século XI e em toda a Idade Média, em que a Salve-Rainha se difundiu com vigor, tanto nos mosteiros como na vida dos leigos. Maria é Regina misericordiae, como também Regina, mater misericordiae. Ao termo “Rainha” são adicionados os adjetivos vita, dulcedo et spes nostra. Podemos dizer que Maria não é vista como uma rainha tirânica, distante do povo e que lhe causa medo, mas sim como uma rainha de ternura e amor, é vista também com amor e ternura por ser “mãe de misericórdia”.

Também é feita outra referência à misericórdia de Maria ao se pedir que ela volte seu olhar misericordioso para aqueles cuja defesa ela assume. Aquela que se compreende como uma serva de Deus e que teve o olhar do Altíssimo posto sobre si mesma em sua humildade (cf. Lc 1,48) agora é convidada a olhar para os que clamam por ela.

A partir dessa impostação inicial da Salve-Rainha é que se apresenta o “como” as pessoas se voltam para a Mãe Misericordiosa, ou seja, com brados, “gemendo e chorando”. Essa forma de recorrer à Virgem nos soa como a de alguém que se encontra em aflição ou, como diz o texto, são os “degredados filhos de Eva” que vivem num “vale de lágrimas”. Seja por aflição ou por participarem da sorte de Eva, no que se refere ao pecado, a oração é um grito confiante de socorro.

Tanto a aflição como o pecado nos colocam diante de sérias consequências. Por isso, devido a sua realeza e sua maternidade misericordiosa, Maria é clamada como “advogada nossa”. No contexto feudal, como nos dias de hoje, o advogado é o que garante proteção jurídica contra os inimigos. Assim, encontramos a manifestação de que Maria se compadece dos seus e assume a causa deles.

Atualmente, é muito questionada a ideia da vida como um “vale de lágrimas”. Teme-se que pensar a vida como um exílio de sofrimento gere conformismo nas massas predominantes esmagadas pela injustiça e conformismo, baseadas na esperança de que, na vida eterna, tudo acabará. Também se pode pensar que, pelo fato de dor e sofrimento fazerem parte da condição humana, se esqueça de que a alegria e a felicidade também o fazem. Por outro lado, não podemos ignorar que, para muitos, é difícil encontrar alegria e felicidade em meio a situações de morte e medo em que muitas pessoas se encontram ameaçadas todos os dias.

Cemitério Parque Tarumã, Manaus-AM – Foto: Marcelo Camargo (Ag. Brasil)

Também, quem seria capaz de negar a semelhança que o termo “vale de lágrimas” comporta quando encontramos imagens de imensos espaços abertos que, às pressas, foram cavados para enterrar pessoas? Pensemos nas imagens do Cemitério de Manaus e outros espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Ou ainda, não ver esse “vale de lágrimas” quando se abre uma vala comum em que se depositam caixões, um ao lado do outro, inclusive, negando a possibilidade de um velório em que se possa despedir da pessoa amada?

Definitivamente, a vida não é um “vale de lágrimas”, mas todos nós, viventes, atravessamos esse vale em diversas circunstâncias. E mesmo que, em determinados momentos da vida, a expressão não nos diga absolutamente nada, é preciso olhar para os que vivem nesse “vale de lágrimas” e, como o bom samaritano, ter compaixão. Voltar-se à Mãe de Misericórdia com verdadeira devoção é assumir o compromisso de sermos misericordiosos como nosso Pai é misericordioso (cf. Lc 3,36).

Conclusão

A Virgem Maria nunca nos abandonou. Em seu múnus materno, intercede a Deus por todos nós. No Espírito Santo, estamos unidos com a Mãe de Jesus pela oração, no que denominamos de “Comunhão dos Santos”. Estamos unidos, vivos e mortos, santos e pecadores, testemunhas da santidade de Deus e penitentes, num “laço de fraternidade” muito estreito, que é o próprio Espírito Santo que nos leva a rezar.

E a oração nunca serve para que Deus faça a nossa vontade. Isso é um absurdo! A oração, pelo diálogo amoroso da Criatura com o Criador, nos leva a querer fazer a vontade de Deus, mas para isso é necessário o dom da fé. E, novamente, o mesmo Espírito que nos une, nos faz rezar e também nos dá o dom da fé. E, por fim, a fé nos incute coragem.

Gostaríamos de tomar a cidade de Cartago no século III como um exemplo. Logo após a perseguição de Décio (250-251), a cidade é duramente provada com a irrupção de uma terrível epidemia. Diz-se que:

“A população perdeu a cabeça, e o terror causado pela aparição da peste era tal que, muitas vezes, quando numa habitação alguém era atingido pelo mal, os próprios parentes ou patrões, pressurosos em evitar o contágio, o lançavam à rua e o abandonavam à própria sorte.”

Diante disso, o bispo da cidade, Cipriano, escreve uma carta convocando o povo a não perder a fé diante do que ameaça a vida, pois “somos pela morte conduzidos à imortalidade”.

Também diz que:

“Quando, portanto, irromper uma calamidade, uma fraqueza ou enfermidade, então nossa força se aperfeiçoará, então a fé, que perseverou na tentação, será coroada, conforme está escrito: ‘O vaso se prova na fornalha, e os justos, no sofrimento da tribulação’” (Eclo 27,5).

Queremos, mediante a fé, superar este tempo de pandemia e sermos pessoas melhores. Cremos que o Senhor nunca nos abandonará. Caso o “entardecer” (cf. Mc 4,35) nos alcance e nos vejamos em terrível tempestade, devemos ouvir o Senhor nos questionar: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” (Mc 4,40).

Nessas horas, elevemos nossos olhos ao Cristo crucificado, Árvore da Vida, e à sua Santa Mãe, e peçamos ao Pai, pelo Espírito Santo, o dom da fé. A devoção mariana, especificamente neste momento, é a expressão de que cremos que não estamos desamparados, mas precisamos de fé para em tudo fazer o que Jesus nos disser (cf. Jo 2,5).

Referências

AMATO, Angelo. Maria la Theotokos. Conoscenza ed esperienza. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2011.

BOFF, Leonardo. A Ave-Maria. O feminino e o Espírito Santo. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2003.

CIPRIANO de Cartago. Obras Completas I. São Paulo: Paulus, 2016.

FRANCISCO, papa. Homilia do dia 27 de março de 2020. Disponível em: <https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2020-03/papa-francisco-homilia-oracao-bencao-urbe-et-orbi-27-marco.html>. Acesso em 30 maio / 2020.

GEBARA, Ivone; BINGEMER, Maria Clara L. Maria, mãe de Deus e mãe dos pobres. Um ensaio a partir da mulher e da América Latina. Petrópolis: Vozes, 1987.

MAGGIONI, Corrado. Bendetto il frutto del tuo grembo. Due milleni di pietà mariana. Casale Monferrato: Portalupi Editore s.r.l., 2000.

MONJAS BENEDITINAS. A MORTALIDADE – INTRODUÇÃO. In: CIPRIANO de Cartago. Obras Completas I. São Paulo: Paulus, 2016.

ROSCHINI, Gabriel. Instruções marianas. São Paulo: Paulinas, 1960.

(Texto publicado no site do Conselho Nacional do Laicato do Brasil – https://www.cnlb.org.br/?p=4868)

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